REALIDADE INVENTADA

"Nao quero ter a terrivel limitacao de quem vive apenas do que e passivel de fazer sentido. Eu nao: eu quero uma realidade inventada."

Clarice Lispector




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terça-feira, 5 de abril de 2011

Casamento Kinsella/brasileira

                                                             

Hoje finalmente fui com namorido no cartorio, levar toda a tonelada de documentacao pra finalmente registrar o casamento, que ate entao era so uma previsao de data e um monte de planos pra festa. Como quando eh pra ser tudo da certo (ou assim dizem minhas amigas do time do "Segredo"), a reuniao nao podia ter corrido melhor, a mulher que nos atendeu foi uma linda, nos ajudou em tudo que podia, tirou todas as nossas duvidas, e ainda adiantou a papelada do hotel onde vai ser a festa, assim "meio em off" (e nao eh que existe jeitinho irlandes tambem?).

De qualquer jeito, sai do cartorio com uma sensacao de alivio gigante, e explodindo de felicidade. Mas como eu sou rabugenta, sou obrigada a comentar um detalhe que me irritou...  Do lado da mulher simpatica que nos atendeu ficava um arquivo, onde foram arquivados todos os documentos que apresentamos. Por coincidencia o armario estava aberto, e eu podia ver um monte de pastas arquivadas la, de outros casamentos, todos arquivados com uma etiqueta em cima, assim: nomedonoivo/nomedanoiva. Por exemplo: Wedding Sr.Fulanodetal/Sra.Fulanadetal. Um milhao de pastinhas, todas iguais, todas com etiquetas iguais. E a minha la, por ultimo:

WEDDING MICHAELKINSELLA/BRAZILIANGIRL

Como assim? Nao tenho nome agora, so nacionalidade? E por que precisa escrever de onde eu sou? Da muito trabalho escrever meu nome la na etiqueta? (tudo bem, da um pouquinho porque ninguem sabe soletrar meu nome certo, mas caramba, ela ta com o meu passaporte na mao pra copiar).

Enfim, sei que eh bobeira, sei que nao faz diferenca nenhuma, e que a pasta vai ficar la criando mofo no arquivo do cartorio, mas ainda assim nao gostei. Tambem queria meu nominho na etiqueta. Quase reclamei, mas sei que namorido ia morrer ali mesmo, de vergonha, e se ele nao morresse COM CERTEZA o casamento morria, porque ele ODEIA reclamar em publico, de qualquer coisa, e ia fugir antes de assinar os papeis do registro.. Mas oh, esse cartorio que me aguarde. Ainda sou capaz de ter um filho e colocar um nome bem grande, cheio de LHs, NHs e QUs pra soletrar, so pra fazer eles escreverem T-U-D-I-N-H-O! Quero ver o que eles vao escrever na pasta do meu irish baby ANAXAGORAS MALAQUIAS ALBUQUERQUE CARVALHO MARINHO Kinsella. E ai de quem reclamar!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Embolando o meio de campo...


O dificil com organizar casamento entre culturas diferentes eh que alem do stress normal com a festa, ainda tem o stress de ficar tentando conciliar as tradicoes irish e brasileiras, e tentar achar um meio termo que agrade a todos. Por conta das tais diferencas culturais, vira e mexe eu e a familia do namorido estamos "concordando em discordar", e no fim das contas nao conseguimos decidir nada. O negocio eh que ele pensa que tudo eh melhor do jeito irlandes. Ja eu tenho certeza que o jeito brasileiro de fazer festa eh muito mais legal... ehehe.

A discussao do menu da festa, por exemplo, ja rendeu mais troca de ideias e receitas do que o programa da Ana Maria Braga...Primeiro comigo tentando explicar que essa historia de comer costela de carneiro com couve-de-bruxelas ta mais pra jantar de casa de vo do que pra jantar de casamento.. Depois com a sogra HORRORIZADA com a minha sugestao de salgadinhos e canapes, recebida com indignacao e protestos de que servir canape em festa eh pobre (se ela achou canape pobre, o que ela diria se eu falasse que estou pensando em infiltrar umas coxinhas na festa :/)... A muito custo chegamos num acordo e concodamos num churrasco no jardim (abencoada ideia de fazer a festa em frente a praia e no verao).

Agora a novela da vez eh o bolo de casamento. A tradicao irlandesa eh um bolo feito de frutas secas e brandy, que eu odeio e acho que parece uma versao esquisita de panetone de natal. Nao so esse bolo eh servido no casamento, mas o que sobra dele eh guardado no freezer por anos para ser servido na primeira comunhao das 572 criancas que a boa esposa irlandesa tera nos anos subsequentes. Alooooo pessoas, se esta sobrando bolo ate pra comunhao da filharada, ninguem se ligou que o bolo eh RUIM? Se fosse bom nao sobrava nadaaaaa... E o que eles poem na receita do bolo pra fazer durar tantos anos, mesmo tendo laranja, uva passa e amendoa? Formol?

Pode ser tradicao, pode ser cultural, pode ser ate que eles realmente achem gostoso, mas eu estava mesmo eh sonhando com um bolo daqueles bem brasileiro, quem sabe ate com um recheio cremosinho feito de leite condensado... que certeza que a parte irlandesa da minha familia ia achar bleh, porque eles nao gostam de doce doce (sim, eu nao escrevi errado, eles nao gostam de doce doce).

Por enquanto estamos num impasse. E sendo assim, meu lado noiva genio do mal esta entrando em acao, e estou pensando que na verdade, o que os olhos nao vem, os Kinsella nao sentem.. Uma boa cobertura de marzipan branquinho, umas flores no topo e tcharan quero so ver se alguem vai desconfiar que por baixo daquela carinha irlandesa meu bolo de casamento vai estar escondendo um belo recheio de brigadeiro... #ideiaasepensar

quarta-feira, 16 de março de 2011

Holy gravy.


De todas as milhares de mudancas que o intercambio cultural provocou em mim, eu nao diria que o paladar foi um dos mais afetados. No Brasil eu gostava de comer  bastante pizza, massa e chocolate. Aqui na Irlanda eu gosto de comer bastante pizza, massa e chocolate. E se de vez em quando eu sinto uma saudadezinha de comer feijao preto e pastel de feira, isso mais que compensa o fato de que aqui posso alimentar meu segundo estomago (o feito so para acomodar bobagens) com besteiras de muito melhor qualidade do que eu podia no Brasil, ja que chocolate Lindtz e sorvete Haagen-Dasz aqui custam ridiculamente barato quando comparado com Sao Paulo...

Apesar disso, aos poucos eu percebo uma mudancinha aqui e outra ali nos meus habitos alimentares... a mais recente dessas "adaptacoes gastronomicas" da minha dieta foi o gravy.

Para quem nao sabe, o gravy nada mais eh do que o suquinho que a carne solta ao cozinhar, engrossado e temperado com os ingredientes que o cozinheiro quiser, para formar um molho que deve ser servido com a carne, evitando que ela fique seca. Apesar de ter surgido no Egito, o gravy se tornou parte tradicional e importantissima da culinaria inglesa e irlandesa (e tambem americana, alias), e toda carne assada, seja carneiro, porco ou boi, tem que ser servida acompanhada com uma tigelinha de gravy do lado.

Quando eu cheguei aqui, achei a tradicao nao so esquisita mas completamente inutil. Comi carne assada a vida inteira, e nao sei se por habilidade da minha mamae cozinheira, ou por habito mesmo, nunca senti necessidade nenhuma de colocar molho por cima. Pelo contrario, achava que carne eh pra ser comida com gosto de carne, sem nada de molhinho do lado pra atrapalhar.

Mas com os jantares em familia crescendo por aqui, e a cada domingo provando uma carne com um gravy diferente, acabei me rendendo a tradicao daqui, e agora adotei o gravy ate quando faco picanha no forno!

Namorido aprovou a nova inclusao no cardapio, mas pelo menos pra comer a picanha ele esta preferindo a farofa como acompanhamento. Pelo jeito nao sou so eu que esta tendo os habitos gastronomicos influenciados pela mudanca cultural...

segunda-feira, 14 de março de 2011

Do meu vestido de noiva.


Tenho que admitir, 90% da graca de pensar no meu casamento se resume a imaginar a mim mesma vestida de noiva. Nem parei pra pensar ainda na comida, na musica ou no modelo do convite, mas 2 segundos depois de ficar noiva ja estava pensando no vestido...

Porque eu tenho a sorte de ter amigas lindas que nao se importam de dividir as proprias coisas, e que sao ABENCOADAS com o mesmo (bom) gosto que eu (cof cof), acabei encontrando o vestido perfeito logo de cara!

Assim que falei que ia comecar a procurar o meu vestido, minha querida amiga K. se ofereceu para emprestar o vestido (MARAVILHOSO) do casamento dela. Nem preciso dizer que fiquei MEGA feliz, mais ainda quando provei o vestido e amei. Serviu direitinho, era do modelo que eu gosto, enfim, achei perfeito!

Maaaaaas como vestido de casamento eh uma decisao super importante (e tambem porque ja tinha combinado uma visita a loja com a minha sogra), decidi tentar outros modelos antes de decidir, e ver se meu deslumbramento com o vestido da minha amiga nao era precipitado...

Munida de uma amiga sincera porem gentil (porque eu lido bem com critica mas tambem preciso de um certo apoio moral) para me defender dos ataques ensandecidos da minha "sograzilla", passei a manha toda experimentando 4.728 vestidos diferentes, tirando fotos, analisando, provando de novo os favoritos... tudo so pra chegar a conclusao que o vestido da minha amiga K. ainda era muito mais bonito que todos os outros, e minha paixao a primeira vista por ele mais do que justificada.

A parte dificil foi convencer a sogra, cuja ideia de noiva "na moda" parou la nos anos 80, e estava me imaginando num vestido de 498 camadas, purpurinas, babados, e manga bufantes, pra combinar com os saltos altissimos e o aplique no cabelo que ela acha que eu vou estar usando (oi???).. Sinto muito em comecar a vida de casada ja desapontando a familia de namorido, mas nao posso fazer nada se acho o auge do cafona esse monte de peruice que ela ficou sugerindo... E vou usar minha autoridade de noiva pra bater o pe no quesito "visual". Sabe como eh, meu casamento, minhas regras...

Sendo assim, ja dei um OK no vestido na minha lista de pendencias matrimoniais. Agora so faltam todas as outras :/

Ps: K. amiga linda, um milhao de obrigados pelo vestido. Nao posso pensar numa maneira melhor de passar meu dia especial do que usando o vestido de alguem que tem um casamento abencoado como o seu. Vai ser meu talisma, certeza  :)