REALIDADE INVENTADA

"Nao quero ter a terrivel limitacao de quem vive apenas do que e passivel de fazer sentido. Eu nao: eu quero uma realidade inventada."

Clarice Lispector




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sexta-feira, 25 de março de 2011

Embolando o meio de campo...


O dificil com organizar casamento entre culturas diferentes eh que alem do stress normal com a festa, ainda tem o stress de ficar tentando conciliar as tradicoes irish e brasileiras, e tentar achar um meio termo que agrade a todos. Por conta das tais diferencas culturais, vira e mexe eu e a familia do namorido estamos "concordando em discordar", e no fim das contas nao conseguimos decidir nada. O negocio eh que ele pensa que tudo eh melhor do jeito irlandes. Ja eu tenho certeza que o jeito brasileiro de fazer festa eh muito mais legal... ehehe.

A discussao do menu da festa, por exemplo, ja rendeu mais troca de ideias e receitas do que o programa da Ana Maria Braga...Primeiro comigo tentando explicar que essa historia de comer costela de carneiro com couve-de-bruxelas ta mais pra jantar de casa de vo do que pra jantar de casamento.. Depois com a sogra HORRORIZADA com a minha sugestao de salgadinhos e canapes, recebida com indignacao e protestos de que servir canape em festa eh pobre (se ela achou canape pobre, o que ela diria se eu falasse que estou pensando em infiltrar umas coxinhas na festa :/)... A muito custo chegamos num acordo e concodamos num churrasco no jardim (abencoada ideia de fazer a festa em frente a praia e no verao).

Agora a novela da vez eh o bolo de casamento. A tradicao irlandesa eh um bolo feito de frutas secas e brandy, que eu odeio e acho que parece uma versao esquisita de panetone de natal. Nao so esse bolo eh servido no casamento, mas o que sobra dele eh guardado no freezer por anos para ser servido na primeira comunhao das 572 criancas que a boa esposa irlandesa tera nos anos subsequentes. Alooooo pessoas, se esta sobrando bolo ate pra comunhao da filharada, ninguem se ligou que o bolo eh RUIM? Se fosse bom nao sobrava nadaaaaa... E o que eles poem na receita do bolo pra fazer durar tantos anos, mesmo tendo laranja, uva passa e amendoa? Formol?

Pode ser tradicao, pode ser cultural, pode ser ate que eles realmente achem gostoso, mas eu estava mesmo eh sonhando com um bolo daqueles bem brasileiro, quem sabe ate com um recheio cremosinho feito de leite condensado... que certeza que a parte irlandesa da minha familia ia achar bleh, porque eles nao gostam de doce doce (sim, eu nao escrevi errado, eles nao gostam de doce doce).

Por enquanto estamos num impasse. E sendo assim, meu lado noiva genio do mal esta entrando em acao, e estou pensando que na verdade, o que os olhos nao vem, os Kinsella nao sentem.. Uma boa cobertura de marzipan branquinho, umas flores no topo e tcharan quero so ver se alguem vai desconfiar que por baixo daquela carinha irlandesa meu bolo de casamento vai estar escondendo um belo recheio de brigadeiro... #ideiaasepensar

sábado, 19 de março de 2011

St. Patrick's Parade: eu nao fui.

Bellinha bocejando, cansada de comemorar o St. Patricks!

E pela segunda vez eu tive a chance de estar presente ao mundialmente conhecido Desfile de St. Patrick's Day. E pela segunda vez eu ignorei solenemente essa chance, e nao cheguei nem perto da festanca.

Eu sei que a esta altura da minha vivencia na ilha verde, eu ja deveria ter mostrado um pouquinho mais de interesse pela principal comemoracao do pais. Mas o fato eh que definitivamente esse nao eh meu tipo de feriado favorito. Ate a semana passada, alias, nao sabia nem da historia de St. Patricks (nao falo com orgulho, mas com sinceridade)... 

No Brasil, eu sempre fugi do Carnaval. Multidao e barulho nunca foi comigo. Nos ultimos anos, sempre arrumei um jeito de escapar para uma praia vazia ou um sitio de amigos durante os 4 dias, e nem pela televisao eu acompanhei o desfile. Nao gosto. Nao gosto da musica, nao gosto das fantasias, nem gosto do espirito de "pode tudo" que toma conta das pessoas durante o Carnaval. Acho meio coisa de gente frustrada essa historia de ter que esperar o Carnaval para "fazer o que quiser".. por que nao pode fazer o que quer no dia que quer e pronto?

Pois bem, desde que cheguei aqui, sempre ouvi as pessoas se referindo ao St. Patrick's Day como o "carnaval irlandes". E ai ja peguei meio "bleh" e nao quis nem conferir pra ver... No comeco ficava com remorso pensando que estava deixando de me envolver no "irish way of life", e devia estar no pub. Mas depois me convenci de que o St. Patrick's Day eh muito mais pros turistas, e quem mora aqui sabe que irlandes nao precisa de desculpa nenhuma nem de dia especial pra ir pro pub comemorar.

Mas para ninguem me chamar de amarga (sei que a esta altura ja pode ser tarde demais), este ano mesmo passando longe da parada, arrisquei entrar um pouquinho no espirito verde que tomou conta das ruas da cidade.. nao so decidi passar o dia de Sao Patricio a moda irlandesa (no pub bebendo), como adotei o verde do shamrock com a cara e a  coragem (especificamente a cara, na verdade), e pus ate a Bellinha no clima de bandana verde no pescoco.

No fim das contas, tive que admitir para mim mesma que  apesar do meu preconceito, St. Patrick's Day foi sim mega divertido, e que quando se esta entre boas companhias, qualquer dia eh bom pra uma comemoracao.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Holy gravy.


De todas as milhares de mudancas que o intercambio cultural provocou em mim, eu nao diria que o paladar foi um dos mais afetados. No Brasil eu gostava de comer  bastante pizza, massa e chocolate. Aqui na Irlanda eu gosto de comer bastante pizza, massa e chocolate. E se de vez em quando eu sinto uma saudadezinha de comer feijao preto e pastel de feira, isso mais que compensa o fato de que aqui posso alimentar meu segundo estomago (o feito so para acomodar bobagens) com besteiras de muito melhor qualidade do que eu podia no Brasil, ja que chocolate Lindtz e sorvete Haagen-Dasz aqui custam ridiculamente barato quando comparado com Sao Paulo...

Apesar disso, aos poucos eu percebo uma mudancinha aqui e outra ali nos meus habitos alimentares... a mais recente dessas "adaptacoes gastronomicas" da minha dieta foi o gravy.

Para quem nao sabe, o gravy nada mais eh do que o suquinho que a carne solta ao cozinhar, engrossado e temperado com os ingredientes que o cozinheiro quiser, para formar um molho que deve ser servido com a carne, evitando que ela fique seca. Apesar de ter surgido no Egito, o gravy se tornou parte tradicional e importantissima da culinaria inglesa e irlandesa (e tambem americana, alias), e toda carne assada, seja carneiro, porco ou boi, tem que ser servida acompanhada com uma tigelinha de gravy do lado.

Quando eu cheguei aqui, achei a tradicao nao so esquisita mas completamente inutil. Comi carne assada a vida inteira, e nao sei se por habilidade da minha mamae cozinheira, ou por habito mesmo, nunca senti necessidade nenhuma de colocar molho por cima. Pelo contrario, achava que carne eh pra ser comida com gosto de carne, sem nada de molhinho do lado pra atrapalhar.

Mas com os jantares em familia crescendo por aqui, e a cada domingo provando uma carne com um gravy diferente, acabei me rendendo a tradicao daqui, e agora adotei o gravy ate quando faco picanha no forno!

Namorido aprovou a nova inclusao no cardapio, mas pelo menos pra comer a picanha ele esta preferindo a farofa como acompanhamento. Pelo jeito nao sou so eu que esta tendo os habitos gastronomicos influenciados pela mudanca cultural...