REALIDADE INVENTADA

"Nao quero ter a terrivel limitacao de quem vive apenas do que e passivel de fazer sentido. Eu nao: eu quero uma realidade inventada."

Clarice Lispector




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Enfim sos...



Ontem eu e namorido completamos um ano e meio juntos... Uma semaninha depois de eu completar um ano e meio de Irlanda, porque quis o destino (ou o acaso, ou o que quer que seja...) que nos nos conhecessemos 3 dias depois da minha chegada aqui... e pra comemorar esses 18 meses de amor, nos fizemos algo que ha muito tempo nao tinhamos chance de fazer: NADA! Uma noite inteira sem fazer absolutamente nada, a nao ser tomar um vinhozinho e passar um tempo juntos, so nos dois!

Parece bobo celebrar assim, mas quem acompanha o blog sabe que ha meses tinhamos cunhado como hospede la em casa, e assim passar uma noite sozinhos, curtindo a companhia um do outro, era artigo de luxo. Mesmo quando acontecia de estarmos so nos dois, nao tinha clima pra fazer jantar romantico, porque sabiamos que a qualquer momento podiamos ser surpreendidos pela chegada do cu (o nome aqui aplica-se perfeitamente he he he), com amigos, namorada, cachorro, gato, papagaio, etc...

A questao e: se estavamos comemorando so nos dois, aonde e que o cunhado foi parar? Pois e... ventos de mudanca sopraram la em casa na semana passada, e levaram junto nosso hospede! Nao sem antes causar um vendaval que balancou as estruturas do apartamento... sim, namorido e cunhado tiveram o maior quebra pau, e quando cheguei em casa do trabalho encontrei as malas prontas e cunhado de saida!

Eu acho que briga de familia e pior que briga de marido e mulher, e nao vou nem me meter a besta de botar minha colher no que aconteceu... cada um que se resolva com o irmao que tem (eu tenho a sorte de ter uma irma linda e nao preciso me preocupar com essas coisas). So digo que por mais que quisesse ter a casa so pra gente de novo, fiquei tristinha de ver dois irmaos que sao tao proximos brigando tao feio...

Maaaaaas como o negocio e olhar o lado bom das coisas, pelo menos agora estamos enfim sos, livres para jantares romanticos, noites de filme no sofa e outras "cositas mas" (han han)...

Agora que aprendi a licao, rapidinho decidi fazer uma surpresa pra namorido e transformei o quarto de hospedes em um escritorio e "sala de videogame", como presente de 18 meses juntos (porque eu sou tao legal  ho ho ho). Agora ele tem um lugar so dele, pra jogar XBox ate cansar, estudar pra faculdade e trazer os amigos pra jogar poquer.

Resumo da historia: de uma so tacada me livrei do quarto de hospedes (sabe como e, just in case os irmaos facam as pazes), do XBox na TV da sala e da bagunca dos amigos nas noites de poquer. Ho ho ho, modestia a parte dessa vez eu mandei bem. Proxima missao: dominar o mundo... mwwwwaaaaaahhhh!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dancando na rua...


Ate me mudar para a Irlanda, eu nunca tinha reparado nas regras de transito para pedestres. E quando digo transito para pedestres, eu sou literal... Tem regra pra andar na calcada? Pra que lado voce desvia quando tem alguem na sua frente?

A pergunta cretina tem justificativa: eu percebi recentemente que, mesmo Sao Paulo tendo milhoes de pessoas a mais andando pelas calcadas do que Dublin, por aqui eu sou muito mais propensa a trombadas e esbarroes. Ai foi que reparei: a gente tende a desviar como se estivesse dirigindo, acompanhando a "mao" do trafico! OK, sei que parece obvio (nunca falei que eu era genio mesmo), mas na pratica a gente faz esse tipo de coisa sem perceber... resultado: aqui na Irlanda, toda vez que encontro alguem vindo na direcao contraria, eu desvio pro lado errado. E acabo trombando com todo mundo, o tempo todo!! Fica um tal de da um passinho pra um lado, da um passinho pro outro, fico dancando na rua com os irlandeses a cada dois minutos...

Juntem a essa cabecice da pessoa que vos fala escreve o fato de que geralmente estou conduzindo o super-master carrinho de bebe Monstertruck, ja da pra imaginar o resultado.. estou rapidamente me tornando impopular aqui na vizinhanca pelas minhas habilidades motoras (ou falta de), e estou notando um movimento cada vez maior de pessoas atravessando a rua ao me verem!  

Eu nem estava reclamando muito, porque essa "fuga" das pessoas facilita a minha vida (menos pessoas pela frente, menos encontroes, menos roxos no joelho depois), mas minha auto-estima ja esta comecando a se sentir atingida, e estou me sentindo rejeitada pelos passantes...

Sera que existe curso de "direcao ambulante", para ensinar estrangeiros descoordenados que nao se adaptaram as mudancas de transito (mesmo aqueles que nem dirigem)?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sai zica!




Sei que diz a lenda que agosto e o mes do desgosto, mas pelamordedeus esse fevereiro nao esta deixando por menos, a bruxa esta solta! Andei ate meio sumida, de tanta ma noticia que fui tendo na sequencia... faltou animo pra escrever (sabe aquela historia, se nao tem nada de bom pra falar...).

Mas enfim, como quem canta escreve seus males espanta, aqui estou eu, pronta para um "exorcismo literario".

Esta semana me vi passando por alguns momentos muito dificeis. Alem de momentos de tensao aqui em casa (merece um post a parte) e tambem no trabalho, fiquei muito muito triste porque na quinta-feira o Otavio, meu gatinho persa e paixao incondicional, morreu... Sabe aquele bichinho de estimacao que e que nem filho, que voce cuida mais do que tudo e seus amigos te olham torto porque acham que voce exagera? O Otavio era esse pra mim... e do nada ele ficou muito muito doente e morreu. Nem preciso dizer que fiquei DEVASTADA, ainda mais por estar aqui de longe e nem poder cuidar dele quando ele ficou doentinho...

Mas a semana nao parou por ai, e nos outros dias vi uma amiga muito querida passar por momentos muito dificeis tambem, no hospital, e tambem tive mas noticias a respeito do meu amigo que esta internado desde o comeco do ano. Fiquei com o coracao pequenininho...

Eu sei que sempre tem alguem pra falar que as coisas sempre acontecem por um motivo, e que se foi assim era pra ser assim e pronto, mas quem me conhece sabe que eu nao sou dessas. Acho que algumas coisas tristes acontecem arbitraria e desnecessariamente. Outras, como a perda de um bichinho querido, sao tristes mas esperadas, mais cedo ou mais tarde. Mas nao importa qual seja a razao (destino, shit happens ou whatever), passar por algumas situacoes na nossa vida e muito dificil, e a gente precisa de amor, apoio e paciencia pra esperar a tristeza passar e voltar a ver o lado bom das coisas. Esta semana eu precisei.

Sendo assim, queria agradecer a minha familia linda e minhas amigas perfeitas, que me deram todo amor e apoio do mundo . E oferecer em troca o meu amor e apoio pras minhas amigas passando por maus momentos. Estou aqui sempre, ombros a postos, nem que seja so pra fazer companhia e esperar dias melhores chegarem. Porque e dessa troca que a vida e feita!

E que as aguas de marco  cheguem logo, pra lavar a alma desse fevereiro fedido!

Ps: Otavinho querido, se existe um ceu pra onde vao os gatinhos, que voce esteja nele e seja feliz!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Porque de manha eu sou ranzinza!



Na minha vida anterior, eu tinha meu carro. Nao era assim aquele carro que nooooooossa que carrao, mas era meu. E apesar de  ele passar mais tempo na oficina do que na garagem (cortesia da minha falta de habilidade como pilota), a gente se amava.

Aqui na Irlanda eu ando de onibus. Quer dizer, eu ando a pe, de onibus, de trem, de ovelha, de qualquer coisa... mas pra ir pro trabalho, eu uso o onibus. E apesar das minhas 479 reclamacoes a respeito dos onibus aqui, o sistema ate que funciona. Mas assim, funciona no jeito irlandes de ser, naqueeeeele sossego...

Por exemplo: eu pego o onibus todo dia as 8 em ponto. Isso quer dizer que chego no trabalho exatamente na hora, nem um minuto a mais, nem um a menos (ja que nao ganho hora extra, isso se nao se chama preguica, se chama otimizar o tempo). Mas isso so funciona quando o motorista decide colaborar. Porque dependendo do dia, levo ate quinze minutos a mais, de tanto o onibus parar pra esperar uma pessoa correr ate o ponto (por quase um quarteirao), esperar uma senhorinha terminar uma conversao proibida (sem nem uma buzinadinha pra apressar), ou o motorista gastar uns bons minutos conversando com um senhor parado no ponto (que nao vai tomar o onibus, alias). Eu, com meu jeito paulistano apressadocomhorapratudo de ser, vou ficando mais e mais estressada a cada nova paradinha que o motorista faz, e ja chego no trabalho num bom humor que da ate orgulho!

O que me intriga e que eu olho em volta e NINGUEM parece incomodado.. esta todo mundo la relaxado, lendo um jornal ou olhando a paisagem, nem reparando que o motorista parou no sinal amarelo DE NOVO ao inves de acelerar enquanto dava tempo.

Mas hoje o motorista chutou o balde, e quase me fez pular pela janela pra ir trabalhar a pe, de tanto desespero... estamos la passando por Dun Laoghaire, quando sem mais nem menos o onibus encosta e para. Olho pra um lado, olho pro outro, e nada. Nem no ponto estamos. Ai vejo o motorista, na maior paz, desligar o onibus, fechar a porta com todo mundo pra dentro, e entrar NUMA CAFETERIA!! Deixou todo mundo esperando e voltou uns 5 minutos depois, cafezinho na mao, cara de nem ai...  

Gente, 5 minutos! 5 minutos sao quase dois intervalos da novela INTEIROS,  trancada dentro do onibus, olhando pro relogio e pensando na desculpa que vou falar pro chefe pra estar atrasada DE NOVO (porque vamos combinar que a historia da cafeteria nao ia colar com ninguem)... Olho pro lado pra comentar com a senhora perto de mim o absurdo da situacao, e antes de eu falar qualquer coisa, ainda ouco essa:

- Ah, o tempo esta bom pra um cafezinho mesmo ne... 5 minutinhos nao matam ninguem!

COMO ASSIM MINHA SENHORAAAA... ja estou 5 minutos atrasadaaaaaa... Se fosse em Sao Paulo, quando o motorista voltasse o onibus nao tinha nada inteiro dentro, tinha acontecido uma rebeliao ja.. alias, quando ele voltasse o onibus nem estava mais la, provavelmente! Mas aqui, todo mundo achou NORMALISSIMO ele parar pra um cafezinho em pleno horario do rush de manha!

Nessa hora duas coisas  vieram na minha cabeca: 1. voce pode tirar um paulista de dentro de Sao Paulo, mas nunca Sao Paulo de dentro de um paulista. E 2. que saudade do meu carrinho!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tem dias que a gente se sente...



Que ser expatriada e dificil, isso eu ja estou cansada de saber, e estou aos pouquinhos aprendendo a contornar. Agora, tinha esquecido que mais dificil que ser expatriada e ser mulher, e lidar com todas as sutilidades e ambiguidades que a gente passa sem nem entender direito o que e...

Porque ok,  uma coisa e voce aprender a lidar com a saudade de quem ta longe, a depre por nao estar no seu pais, ou a superar as diferencas culturais. Mas e quando bate aquela tristeza bem de mulherzinha (me perdoem os antropologos de plantao pela minha abordagem sexista, podem me chamar de mulher machista), daquelas que a gente nao sabe nem como nem por que aparece, e pior ainda, como faz pra melhorar?

Pra saudade existe o Skype, pra solidao existem as amigas, pra carencia existe namorido. Mas e pra aquela sensacao de "nao sei o que", aquela angustiazinha que a gente nao consegue nem explicar direito o que e, muito menos sabe como resolver... existe remedio pra isso? Se sim, peco encarecidamente aos leitores de plantao que me enviem a formula (conselhos, simpatias ou meras manifestacoes de simpatia tambem sao bem vindos). Porque ha dois dias acordo assim como diz meu lindo Chico Buarque, me perguntando se "a gente estancou de repente ou foi o mundo entao que cresceu..."...

E enquanto ao ouvir as musicas que falam dessa tristeza da alma eu entendo muito bem a que elas se referem, na minha vez de sentir, fico mesmo e perdida, Porque se tento seguir o que sinto, quero ao mesmo tempo ficar sozinha e me sentir cuidada, nao falar nada e tambem conversar sobre isso... Fico tentando transmitir em acoes ou palavras o que estou sentindo, e acabao ficando so mais e mais frustrada. Entao por enquanto, vou ficando quietinha, so esperando passar...

Porque se e que o Chico tem razao (e ele sempre tem),  daqui a pouco chega a roda-viva e carrega a tristeza pra la...